quarta-feira, 4 de março de 2009

Biblioteca Mario de Andrade - um antigo caso de amor

(Foto de Marcos Mendes)
Tenho por essa biblioteca um carinho muito grande e, na mesma proporção, uma tristeza de vê-la sempre aquém do que poderia ser. Conheci a Biblioteca Mario de Andrade na década de 90 quando iniciei o curso de arquitetura. Ao precisar fazer um trabalho, fiquei sabendo de sua existência e fui até lá para conhecê-la. Fiquei deslumbrada com sua oponência, sua arquitetura, seus detalhes...Ao entrar na sala onde ficava o acervo de artes, fiquei mais admirada ainda. Contudo, minha admiração pouco a pouco foi sendo substituida por um pesar muito grande.

Infelizmente, as pessoas que ali trabalhavam demonstravam um total desprezo pelos usuários e por tudo que ali estava. Sempre mal humoradas, não davam atenção devida aos que ali apareciam solicitando orientação e ajuda. Lembro-me de uma senhora que vivia a reclamar e a dizer que não aguentava mais trabalhar naquela espelunca e que não via a hora de se aposentar.

Como naquela época eu já sabia me virar dentro de uma biblioteca, jamais precisei de suas orientações mas ficava muito triste ao presenciar alunos de escolas públicas que por ali passavam precisando fazer pesquisa escolar e sendo tão mal tratados por essas pessoas. Resumindo: esses alunos saiam da biblioteca sem pesquisa feita e ainda por cima com uma imagem péssima de todos que trabalham em uma biblioteca. Isso me incomodava e muito. Até que chegou um belo dia em que ao presenciar mais um dos destratos dessa senhora, ao entregar os livros que estava usando perguntei com toda a educação:

-Minha senhora, outro dia ouvi dizer que estava prestes a se aposentar. É verdade?

-Sim menina é verdade. Falou a digníssima sem nem ao menos me olhar.

-Falta muito?

-Não, graças a Deus, me aposento daqui alguns meses.

-Humm...fico feliz por você. E mais feliz ainda em saber que um dia voltarei aqui e não vou mais me deparar com tanto mal humor e destrato com os usuários daqui. Desejo tudo de bom pra senhora. Retorno daqui alguns meses também. Tchau!!

A senhora ficou com cara de tacho pois não esperava minha resposta e acredito eu, nem contava com toda a minha delicadeza em dizer-lhe o quanto ela era desagradável com os outros.
Sai de lá e só voltei a por os pés naquela biblioteca anos mais tarde quando minha vida deu uma reviravolta e passei a cursar biblioteconomia e tive aulas de estágio aos sábados. A emoção foi a mesma e a tristeza continuou a mesma também. Não querendo criticar mas já criticando, hoje sou uma profissional da área e procuro sempre na medida do possível exercer minha profissão com amor, carinho, dedicação e acima de tudo, respeito pelo usuário. Esse é o nosso grande, único e importante cliente ao qual devemos tudo pois sem eles, a biblioteca não tem razão de existir. Pena que nem todos os profissionais pensem como eu. Fazendo esse estágio lá, tinha a rara oportunidade de conhecer um pouco do rico e imenso acervo e fiquei maravilhada com tudo.
Esse pequena (e imensa introdução) foi para falar um pouco sobre a questão da infestação dos livros que me deixou abismada e com uma dor imensa no coração. Mais uma vez observo uma riqueza intelectual e cultural indo pelo ralo em nossa sociedade que continua a não dar a devida importância aos livros e ao que eles representam na história da humanidade. Por outro lado, também aproveito para noticiar a medida que foi tomada para que se elimine essa praga nos livros do acervo da Mario de Andrade. Afinal, foram mais de 200 livros a serem infestados por brocas que podem acabar com esses livros caso não se tomem providencias. E essa providência chegou e me deixou muito feliz. Espero sinceramente que essa seja uma das inúmeras medidas em benefício dessa biblioteca que representa a cidade de São Paulo e que merece o cuidado e o carinho necessários de todos que a frequentam, precisam e gostam da boa leitura e da boa informação. São Paulo merece uma biblioteca que a represente a altura. Fico no aguardo e na esperança de vê-la recuperada dessa enorme reforma e com seu acervo a salvo.
Para saber mais sobre as medidas de recuperação desses livros Leia Mais

Um comentário:

Karin disse...

Olá!

Obrigada por visitar meu blog, estou retribuindo a visita!

Essa postagem tocou em dois dos assuntos que me são mais caros: conservação e preservação de acervos e referência. Profissionais inaptos e (e muitas vezes ineptos), graduados (ou não, ainda e infelizmente) em biblioteconomia, deveriam ter na referência o foco da biblioteca. E zelar pelo acervo. Por isso defendo a educação patrimonial em bibliotecas!

Até mais!